A cultura do descarte

Nesses últimos dias, estive sem muito ânimo para escrever. Especialmente porque muitas questões surgiram sobre esse meu processo de desapego. Sempre preocupada em ter menos objetos, simplificar, editar, modificar – e justificar todas essas ações -, pouco tempo me sobrava para realmente aproveitar aquilo que eu decidia manter. Minha vida que deveria estar mais simples e prazerosa, tornou-se uma constante insatisfação.

Percebi que meu pensamento, refletido em meus posts, estava com o foco errado. Sim, é importante falar sobre a mudança de hábitos, sobre reavaliar suas prioridades. É válido celebrar a conquista de ter uma vida menos sobrecarregada, de ter menos coisas no armário. Mas o principal sentido desta filosofia para mim não é esta competição (ainda que individual) de ter sempre menos, de estar sempre procurando o que mudar. Isso só têm me feito prestar mais atenção naquilo que eu quero descartar, quando eu deveria ter minha energia voltada para cuidar e  usar aquilo que eu tenho. Se o minimalismo muitas vezes é definido como “identificar o essencial e eliminar o resto”, acho que passei muito tempo na parte de eliminar que nem sequer consegui aproveitar o que chamei de essencial.

Na verdade, entrei em um círculo vicioso, pois o próprio fato se ter o hábito de descartar, justifica o consumo de coisas desnecessárias. Não há tanta culpa em comprar coisas não-essenciais, se pouco tempo depois é possível colocar esse objeto em uma caixa de doação e ganhar de volta o espaço na gaveta – e de bônus um sentimento reconfortante de ter feito uma “boa ação”. O minimalismo não deveria se transformar na cultura do descarte. O prazer de consumir (tão criticado) é simplesmente substituído – ou aliado – ao prazer de descartar.

Chego à conclusão de que, se eu desejo ter menos coisas para melhor usufruí-las, e não apenas pela obsessão de ter menos, o hábito principal a ser desenvolvido não é o descarte. Essa deveria ser uma prática única, ou no máximo anual. É muito mais importante adquirir um maior controle do consumo e planejar melhor aquilo que eu for comprar. Se o que entrar for útil, não terá porque ser descartado tão cedo. A outra prática é a de aprender a usar o que já temos, sem pena, afinal, os objetos foram feitos para serem usados mesmo. E usá-los com criatividade, para diminuir ainda mais a necessidade de adquirir mais coisas.

Estar satisfeita com o que tenho e com a mente mais clara quanto às minhas necessidades parece ser uma meta mais sensata, em vez do objetivo ser a constante edição. Sinceramente, esta prática do destralhamento constante me parece agora algo muito mais consumista do que minimalista. Afinal, tem coisa mais consumista do que o fato dos produtos hoje em dia serem praticamente descartáveis? Com o declutter só estamos fazendo isso mais cedo, com objetos em perfeito estado, em nome de um “estilo de vida” e da “simplicidade”, e quase sempre para compensar uma compra mal planejada.

Por isso, pensando no destino desse blog, acho que não faz mais sentido para mim relatar como está o meu processo de desapego ou quais as técnicas para se ter menos. Vejo que preciso redirecionar minha energia para escrever sobre as coisas que mais gosto, como melhor usá-las, sendo mais criativa e mais seletiva com as compras. Creio que serei mais feliz criando, usando, vivenciando, conquistando do que apenas desapegando…

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